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12 de abr. de 2012

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SUBSTITUIR A PROPRIEDADE PRIVADA PELA PROPRIEDADE COLETIVA
O texto abaixo foi lido no dia 09/04/2012, por ocasião de um encontro ecumênico em comemoração aos 105 anos da E. E. Otoniel Mota. A platéia era composta majoritariamente por alunos de idades variadas, alguns professores, ex-alunos e convidados, além dos representantes das religiões Indígenas, Africanas, Hindu, Judaica, Católica, Presbiteriana, Espírita e eu, que fui representante do ateísmo ou da não religião. Após a leitura fui cercado por crianças que me cumprimentavam, elogiavam o texto, puxavam conversas sobre música, cheguei mesmo a dar-lhes a cópia do texto. Não posso negar que, dado o conteúdo das palavras abaixo, foi espantoso, comovente e inspirador a reação das crianças.
*****
Boa tarde. É com muita alegria e com o coração aberto que encaro a enorme responsabilidade de representar a não religião em um encontro ecumênico. Os 105 anos do Colégio Otoniel Mota muito nos devem orgulhar, principalmente por tratar-se de uma escola pública. As palavras são poderosas, podem tanto iluminar quanto obscurecer a visão, espero que as que seguem possam ser fonte de luz.
Nossa mãe Terra nos transcende, é divina, sagrada... O planeta que nos gerou e nos abriga está em nós, nos é e nos ultrapassa. Assim como Terra carrega em si a força criadora do primeiro bóson que permeia todo o universo, também nós somos feitos da mesma matéria que os sóis, as galáxias, as pedras, as aves ou as árvores.
Vivemos uma mudança de época, que implica em uma mudança de paradigmas, de ideias e hábitos... E a educação tem papel fundamental na criação desse Novo, pois é através da educação que transmitimos de geração em geração o Todo acumulado pela história da humanidade, que envolve o desenvolvimento cognitivo e emocional, a consciência de tudo o que é humano e do que nos transcende.
O que pensamos ou fazemos, tudo aquilo que somos, essencialmente, é resultado da epopéia humana e de toda a história do universo. Somos, hoje, a evolução da humanidade e parte da evolução do cosmos.
Um médico nada saberia não fosse todos os que se dedicaram à medicina antes dele, assim como um músico, um mecânico, um poeta, um padeiro, um professor... Mesmo a língua que usamos para comunicar e exprimir nossos mais íntimos sentimentos nos foi legada por aqueles que antes de nós a criaram e desenvolveram.
Nosso tempo clama por mudanças, e uma das mais corajosas e urgentes é a substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva. Corajosa, pois implica em vencer nosso egoísmo, nossa vaidade, em nos desapegarmos da forte ilusão de posse que nos entorpece a mente; urgente, pois o sistema capitalista concentra tudo nas mãos de uns poucos jogando a maioria da humanidade na miséria, matando de fome milhares de crianças todos os anos, destruindo o meio ambiente e levando várias espécies à extinção, tudo para saciar a obscena sede de acumulação privada.
Ninguém tem o direito de tomar para si o que pertence a todos, e tudo o que existe na Terra pertence a Todas as formas de vida. Ao acumularmos nos centramos em nosso próprio ego, excluímos o outro de nossas vidas, deixamos de praticar a empatia e nos tornamos escravos daquilo que acreditamos possuir.
É difícil a tarefa com a qual nos confrontamos: substituir a opressão pela liberdade, o preconceito pelo respeito ao diferente, a competição pela ajuda, a divisão pela união, a acumulação pela partilha, o privado pelo coletivo, mas conseguiremos, pois tudo que necessitamos é de amor: amor pelo sangue do universo que corre em nossas veias, amor por todos os homens que caminharam sobre a terra e nos conduziram até aqui hoje, amor por aqueles que ainda virão, amor pela vida. Obrigado.
Lucas Mani Jordão

15 de mar. de 2012

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A FALSIFICAÇÃO DA HISTÓRIA
2012 é ano de eleições (municipais) e, como sucede invariavelmente nesses fatídicos anos, somos bombardeados com propagandas políticas e seu discurso demagógico, grandiloqüente, retórico e mentiroso. Exemplos não faltam, basta lembrarmos da ficha criminal falsificada, da então candidata à presidência da república Dilma Rousseff, que circulou o país nas páginas dos principais jornais  nas eleições presidenciais de 2010.
Desinformação, contra-informação, mentira e sabotagem são armas amplamente utilizadas para manipular a opinião pública. Quem conhece um pouco a História do Brasil não ignora o fato de que nossa terrível ditadura foi levada a cabo, material e ideologicamente, pelo governo Norte Americano, que chegou a enviar alguns dos seus numerosos especialistas em tortura para treinar nossos oficiais no metiê. Quem acompanhou a invasão do Iraque, mais recentemente da Líbia e, agora, acompanha a movimentação para a invasão da Síria e Iran não deixa de perceber a mesma manobra, com o agravante da contratação de mercenários (pelos “aliados” EUA, UE e Israel) para que formem guerrilhas e finjam ser cidadãos que lutam contra o regime de governo local. Para mais informações acessar wikileaks.
A internet configura, hoje, uma importante ferramenta de ação política, pois possibilita a rápida troca de informações e a organização dos agentes políticos, o que ficou demonstrado com a atual crise do capital e os movimentos que daí surgiram como o Occupy Wall Street e os chamados Indignados, que lotaram ruas e praças mundo afora. Porém, em mãos inescrupulosas torna-se uma arma de contra-informação, mentiras que chegam mesmo ao cúmulo da descarada falsificação da História.
Acabo de receber um hoax1 abominável, intitulado Professor do Texas e 500 mulheres cearenses! ABSURDO!‏, que pressupõe como público alvo um leitor alienado, ignorante sobre os aspectos mais elementares da história, da sociologia e da política. (para ler o hoax completo clique AQUI)
Trata-se, basicamente, da costura de duas mentiras em um único texto dando forma a uma espécie de véu ideológico que visa condicionar nossa visão da História e nossa interpretação da realidade imediata, garantindo assim a manutenção do status quo gerador de riqueza para uns poucos e de fome e miséria para a esmagadora maioria da humanidade (ler AQUI e AQUI).
O primeiro embuste é uma breve “anedota” intitulada 1º Experiência Socialista de autoria de “um professor de economia na universidade Texas Tech”, sem mais informações nem referencias. O tal “professor”, diante da intransigência de alunos que insistiam em não aceitar o capitalismo como única forma possível de organização social, decide aplicar os princípios socialistas, pela primeira vez na História, substituindo o dinheiro pelas notas das provas (toda a classe tiraria a mesma nota, baseada no desempenho coletivo), o sistema acaba privilegiando os vagabundos (perdedores) em detrimento dos estudiosos (vencedores) e toda a classe é reprovada.
Já no título se vê a hipócrita falsificação da História: a primeira experiência socialista não se deu em uma sala de aula no Texas!!! (uns falam da Comuna de Paris, outros da Revolução Bolchevique e uns até que se deu com os primeiros cristãos, mas no Texas não foi!!). O Socialismo não consiste em dividir o dinheiro (notas) de forma igualitária e nem dividir a sociedade entre os 50% trabalhadores e os 50% vagabundos, ao contrário, trata-se de uma guinada na organização social, um passo na direção de uma sociedade unida e não dividida (comunismo), onde todos trabalhem para e por todos, onde a exploração dos indivíduos, a divisão em classes sociais e o dinheiro não existam.
O texto segue inoculando sua ideologia, separando os homens entre vencedores e perdedores, sendo que no socialismo todos são “perdedores”, o que legitima a minoria de “vencedores” do sistema do capital. Os indivíduos (alunos) aparecem como essencialmente competitivos e egocêntricos, pois ao serem confrontados com a possibilidade de ajuda mútua acabam brigando, se insultando e preferem repetir o ano a buscar o bem comum. Os mais estudiosos (vencedores) decidiram parar de estudar ao invés de tentar plantar a semente do conhecimento no jardim de seus colegas.
Um bom educador deveria ter conhecimento das teorias educacionais mais emancipatórias (Paulo Freire, só para dar exemplo), ou experiências concretas como a Escola da Ponte em Portugal (para saber mais ver AQUI e AQUI), que colocam em xeque a eficácia da aplicação de testes e notas para o processo ensino/aprendizagem, mas o autor da “anedota”, chamado Adrian Rogers, não é professor, é um pastor evangélico... Para ver o desmonte total desse hoax CLIQUE AQUI.
O segundo embuste, intitulado Curso para 500 mulheres no Ceará, beiraria o ridículo se não partisse do princípio de que o leitor é completamente alienado e ignorante. Trata-se da “notícia” de que o governo federal abriu um curso de corte e costura (para atender a demanda da indústria têxtil), exclusivo para beneficiados do programa Bolsa Família, no qual 500 mulheres se inscreveram, todas se formaram e nenhuma quis assumir uma vaga na indústria. O motivo? Recebem o Bolsa Família, claro!
Mais uma vez o conteúdo ideológico salta aos olhos. A mensagem é direta: se um faminto miserável do esquecido sertão do Ceará recebe uma ínfima ajuda do governo o resultado é que se tornará um vagabundo.
A tal “notícia” é tão falsa quanto a justiça capitalista. As páginas da FIEC e do SENAI nada dizem a respeito do curso com 500 desistentes, o Ministério do Desenvolvimento Social, MDS, publicou a seguinte matéria sobre um curso de corte e costura no Ceará (leia AQUI).
Fico impressionado com quem acredita numa história como essa: um curso no qual 500 pessoas se inscreveram, todas se formaram e ninguém quer o emprego para o qual estudou.
Quando o governo repassa algum dinheiro a pessoas miseráveis logo se levantam vozes em coro esbravejando que estamos sustentando vagabundos, mas quando gasta R$ 220 bilhões para pagar juros a uns poucos banqueiros que já são podres de ricos, raras são as vozes que se ouve (vale frisar que o Projeto o Bolsa Família tem orçamento de R$ 16,4 bilhões e atende mais de 7 milhões de pessoas). Leia mais AQUI.
Estamos diante de uma notícia mentirosa, uma fraude que visa confundir e desinformar. Para ver o desmonte completo dessa notícia clique AQUI.
Esses dois embustes fundidos em uma única linha ideológica tecem uma mensagem violenta e impositiva, a visão do capitalismo como o melhor e único sistema possível, que pode ser resumida da seguinte forma: 1) o sistema socialista privilegia os perdedores, vagabundos e preguiçosos em detrimento dos vencedores, por sermos essencialmente competitivos e egocêntricos qualquer tentativa de ajuda mútua termina em conflitos e todos saem perdendo. 2) prova disso é o Bolsa Família que ao repassar dinheiro aos miseráveis cria vagabundos que vivem à custa do governo e não querem trabalhar, como pode ser visto no caso das 500 mulheres do Ceará. 3) em contrapartida o capitalismo é só virtude, pois estimula nosso egocentrismo e competitividade naturais, propiciando aos vencedores alçar altos vôos explorando tudo e todos, gerando os tão desejados desenvolvimento e progresso, sempre em benefício próprio.
Baseado em duas mentiras que se complementam e justificam, cria-se uma terceira mentira que obscurece nossa visão de mundo e falsifica a História. Ao tratar o capital como única via possível legitimam-se as guerras imperialistas, a exploração violenta de tudo e de todos, os 3 bilhões de seres humanos que vivem abaixo da linha da pobreza, a destruição sistemática do meio ambiente, a superprodução, a obsolescência programada,  o consumismo...
Da mesma forma que esse hoax, o sistema do capital é todo sustentado por mentiras: guerras humanitárias, estado de bem estar, progresso, desenvolvimento, mercado auto-regulador... E assim como as máscaras desse hoax as do capital caíram: o planeta não comporta mais o projeto de exploração infinita, o neoliberalismo faliu, a miséria global só faz aumentar assim como a fortuna de uns poucos... Os indivíduos entrevêem sob a cortina de fumaça das chaminés industriais que o capitalismo está a condenar a humanidade.
Nesse ano de eleições muitas mentiras circularão por emails, blogs, jornais e comícios. Tomando-nos por ignorantes, procurarão nos iludir. Precisamos estar atentos para não sermos massa de manobras para os ideólogos do capital. Não podemos aceitar a substituição do debate sério e fundamentado acerca da melhor forma de organização social (que substituirá o capitalismo moribundo), por um saco de abomináveis mentiras.
1Dá-se o nome de hoax (“embuste” numa tradução literal, ou farsa) a histórias falsas recebidas por e-mail, sites de relacionamentos e na Internet em geral, cujo conteúdo, além das conhecidas "correntes", consiste em apelos dramáticos de cunho sentimental ou religioso; supostas campanhas filantrópicas, humanitárias, ou de socorro pessoal; ou, ainda, avisos sobre falsos vírus cibernéticos que ameaçam contaminar ou formatar o disco rígido do computador. Para saber mais AQUI.
Lucas Mani Jordão

4 de mar. de 2012

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A BANCADA CAVERNÍCOLA DE PINDORAMA
“...O ideal está em se obter uma maioria de escravos, com a ajuda de uma minoria de mortos bem escolhidos. Hoje, a técnica está aperfeiçoada. Eis por que, após matar e aviltar a quantidade de homens que era preciso, colocamos povos inteiros de joelhos. Nenhuma beleza, nenhuma grandeza nos resistirá. Triunfaremos de tudo...”
(Estado de Sítio – Albert Camus)
A Democracia Representativa é complexa e merece uma observação mais atenta. Há no processo democrático o pressuposto de que o voto direto é a melhor maneira de escolhermos nossos próprios tiranos. Não quero dizer, de modo algum, que a famigerada ditadura (sistema de governo onde não podemos escolher nossos tiranos) seja melhor. Claro está que o voto popular pode abrir uma lacuna no projeto escravizador de nossa atual idade das trevas, deixa um resto de esperança de que, talvez, a maioria possa efetivamente se emancipar e se autogovernar. Porém, a manipulação mediática, o poder do lobby, as pressões das minorias abastadas, as leis injustas (que são a maioria), a idiotização e infantilização de toda a sociedade acabam por transformar a democracia num teatro de ilusões, um ritual carnavalizado onde os atores que se sucedem periodicamente representam o mesmo papel.
Nas democracias somos todos iguais, só que uns são mais iguais que os outros.
Caso exemplar é o lobby pré-histórico no congresso da República Elitista de Pindorama, a chamada Bancada Cavernícola. Preconceituosos, raivosos, intransigentes e autoritários os hominídeos urram no congresso, vociferando a necessidade de imposição de leis que tornem Pindorama um país homogêneo onde o diferente seja suprimido. Munidos de tacapes verbais, vestindo peles de hipócritas e utilizando um discurso que poderia muito bem ser enquadrado como fascista, apresentaram um projeto de lei que visa legalizar a “cura gay(leia aqui).
Agitando as tábuas das leis das selvas e sonhando com um Pindorama que se pareça com a sociedade que Platão refletiu em seu Mito da Caverna, os pré-históricos parlamentares insistem que o fato de um indivíduo desejar sexualmente outro do mesmo sexo configura um quadro patológico de possessão demoníaca e, portanto, pode e deve ser curado (exorcizado). Seus curandeiros, corre à boca miúda, já identificaram o vírus/demônio da homossexualidade e temem que uma epidemia assole Pindorama.
Tratar o amor humano como doença, extirpá-lo como um câncer em nome da moral, da propriedade e da família: eis a lógica odiosa dos homens das cavernas.
O UGA-BUGA da extrema direita
No púlpito de seus templos, através das profundezas escuras de palavras distorcidas, curandeiros inflamam os peitos dos seus fiéis com o preconceito mais vil, o ódio ao diferente e o autoritarismo truculento. Manipulam hordas de eleitores para tomarem o poder através do processo democrático. Uma vez lá instalados apressam-se em acender as fogueiras santas da inquisição para queimar vivo quem ouse defender pontos de vista considerados heréticos (descriminalização das drogas e do aborto, direitos homossexuais, etc...), paralizando o debate político de Pindorama, transformando-o num uga-buga demagógico e violento.
A retórica da extrema direita visa despertar o que há de mais vil no ser humano, nossas intolerâncias mais egocêntricas, é daí que extraem sua força. Ao mobilizar o que temos de pior para alçar ao poder, os cavernícolas explicitam a farsa democrática que empesteia as repúblicas por todo o mundo. O séc. XXI demanda urgentemente uma profunda análise sobre a realidade das democracias, é preciso desconstruí-las para criar um novo sistema mais justo, mais humano e menos hipócrita.
Lucas Mani Jordão

26 de fev. de 2012

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Estréia hoje neste blog uma colega minha, a professora Emiliana Abade que escreveu este ótimo artigo sobre o Oscar 2012. E por que estou publicando-o? Pois, além de muito bem elaborado, fez com que eu tivesse vontade de assistir a estes filmes, logo eu que não tenho o hábito (ou tenho muito preconceito) de assistir à filmes indicados ao Oscar. Sendo assim, espero que gostem do texto, e aos que ainda não viram ao filme que tenham a mesma vontade que eu adquiri.

Oscar 2012 – O diálogo entre as produções O artista, Meia-noite em Paris e A invenção de Hugo Cabret
Sobre a premiação do Oscar deste ano temos ouvido dizer que o filme O artista surpreende e que é favorito a levar a estatueta. O que torna a aposta um fato curioso é saber que se trata de uma produção francesa, muda e em branco e preto, que agradou o público mesmo em tempos de cinema 3D.
De fato O artista é um filme lindíssimo. O espectador é convidado a revisitar ou mesmo conhecer o cinema mudo. Mais importante que o próprio enredo, que tem como personagem principal um astro do cinema mudo que se entrega à bebida e vê sua carreira entrar em total decadência por resistir ao surgimento do cinema falado, a obra estabelece com o público um diálogo sobre a própria arte de fazer cinema, seu surgimento e seu aprimoramento.
Em Meia-noite em Paris, o personagem central é um cineasta americano decadente que visita Paris, conhece a arte local e percebe que, mais importante do que apreciar ou saber sobre a arte, é importante interagir com ela. O espectador de Woody Allen viaja com o personagem a uma Paris antiga, dos tempos da Belle Époque, período de efervescência cultural, inclusive do surgimento do cinema.
A invenção de Hugo Cabret também se passa em Paris, no início do século XX. Hugo é um menino órfão que mora escondido com um tio na estação de trem. Do pai herdou o ofício de consertar coisas e a paixão por cinema. Um autômato deixado pelo pai o coloca em contato com Georges Mélies, o pai do cinema francês. O que vemos depois é uma nova declaração de amor à sétima arte. Os efeitos visuais criados por Mélies convivem com os efeitos da moderna tecnologia 3D de Scorsese. Neste filme, o espectador está em Paris, ao lado de Hugo porque a tecnologia contribuiu positivamente para essa interação.
É curioso perceber que três filmes produzidos no mesmo ano abordam a temática da arte de fazer cinema e a produção de sentido em seu espectador, já que uma delas ousou fazer mudo e branco e preto. A adesão afetivo-cognitiva do espectador vai variar conforme sua competência cultural ou vai depender da relação que estabeleceu com essa arte.
Há quem vá dizer que não irá ao cinema para assistir a um filme mudo, há quem vá dizer que se transportar no tempo é característica de filme adolescente ou que A invenção de Hugo Cabret é infantil. Contrárias a essas reações estarão aquelas de espectadores que mergulharam na arte para tirar dela o melhor proveito, porque o cinema permite diferentes experiências sensíveis.
O aspecto relevante das três obras é a rica contribuição para uma análise da trajetória do cinema que, desde muito tempo, encanta o público. A grande inovação, no entanto, veio das lentes 3D de Scorsese que inseriu o espectador em visita extraordinária à Cidade Luz, possível de ser vivenciada, por muitas pessoas, às vezes somente no cinema.
Emiliana Abade

13 de fev. de 2012

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O VOLUNTARISMO
OU O FETICHISMO DA ELITE
 “Nós temos que fazer com precisão
Entre projeto e sonho a distinção
Para sonhar enfim sem ilusão
O sonho luminoso da razão”
Lenine - Ecos do Ão
Em matéria da última quarta feira (08/02/2012), o jornal Folha de São Paulo destaca a atitude da estudante de engenharia da USP Ossana Chinzarian, 25, que “numa quarta feira quente” acordou com uma vontade de se “relacionar com as pessoas de forma mais humana” e uma necessidade “urgente de fazer alguma coisa”. Foi então que deixou seu amplo apartamento na zona sul de São Paulo, dirigiu-se até a “cracolândia” (palco da manobra higienista orquestrada pelo governo paulista), e “adotou” três moradores de rua (dois dos quais usuários de crack). A matéria na íntegra pode ser lida aqui.
A atitude da estudante, com todo verniz altruísta, denota um forte traço ideológico de nossas elites: o voluntarismo. Tese que encampa a idéia da vontade/desejo/querer individual como sendo a essência do universo, é a pretensão de mudar o curso dos acontecimentos através da imposição da vontade individual. O voluntarismo é o oposto da empatia, trata-se de um conceito extremamente autoritário.
O caso de Ossana, infelizmente, não é isolado, configura parte da ideologia da classe dominante atual, que podemos ver expressa na autroproclamação dos EUA como “polícia do mundo”, que com suas “ações humanitárias” massacram nações inteiras.
Basta uma pequena torção na história da jovem Ossana para percebermos seu viés ideológico: mesmo tendo canalizado suas ações em direção ao “outro” (os moradores da cracolândia) sua motivação é exclusivamente egoísta e autoritária; a empatia não está presente, não houve um deslocamento do eu para o outro, na medida que só a vontade (o querer) da estudante está em jogo. Não existiu a mínima preocupação com as reais necessidades do outro. O que desejam os moradores de rua, os viciados em crack? Do que eles realmente necessitam? Qual a vida que gostariam de levar? Onde e como gostariam de viver? Será que levá-los para a zona sul dar banho, comida e colocá-los para assistir ao filme dos X-Man é realmente o que eles precisam e QUEREM?, são perguntas que não aparecem aqui, pois não pertencem ao âmbito impositivo do voluntarismo. A subjetividade do outro não é considerada, sua humanidade é suprimida.
O que temos, na verdade, é a incontrolável necessidade de satisfação de um impulso - (EU) tenho que fazer alguma coisa - e a conseqüente imposição ao outro das soluções encontradas (pelo EU) para fazer a tal coisa.
O outro é reificado, perde a dimensão de sua própria existência humana. Por fim, a ideologia capitalista (diretamente responsável pela atual miséria global) é aplicada como remédio contra o que ela mesma criou: Ossana alugou um apartamento para os “adotados”, comprou roupas novas e tentou lhes arrumar empregos.
Dito de outra forma: A situação degradante em que vivem os miseráveis nas ruas, nas cracolândias, lixões, favelas, etc, é engendrada por um sistema que divide o mundo entre uma pequena elite, dona de tudo, e uma multidão de despossuídos. É a miséria das massas exploradas, daqueles que tudo produzem e nada têm que gera esses ambientes onde a vida humana se degrada. A miséria absoluta só existe em função de sua contrapartida: a acumulação absoluta de riqueza. Em última instância, são os ricos que geram os miseráveis. Assim, a atitude de Ossana, e da elite em geral, é fetichista, pois constitui um desmentido da realidade, onde o fazer alguma coisa esconde o fato de que a lógica do capital (riqueza nas mãos de poucos à custa da exploração tudo e de todos) é o verdadeiro problema.
Lucas Mani Jordão

1 de dez. de 2011

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ENSINO RELIGIOSO:
RETÓRICA FUNDAMENTALISTA
Lucas Mani Jordão
Em Setembro foi divulgado pela imprensa (AQUI) que a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, contrariando o Conselho Municipal de Educação, aprovou a inclusão do “ensino religioso” (eufemismo para lavagem cerebral) nas escolas do município. Agora, aqui em Ribeirão Preto – São Paulo – circula entre os professores (informalmente) que o governo pretende implantar o mesmo nas escolas estaduais.
Desnecessário dizer que a laicidade do Estado é um dos maiores pilares da liberdade individual. Igualmente desnecessário é trazer à luz a Constituição Brasileira. O que deve ser elucidado aqui são os interesses que estão em jogo, ocultos nessa medida: Demanda de grupos religiosos que financiam campanhas eleitorais, adestramento das massas através da imposição de dogmas, padronização fundamentalista dos indivíduos e a conseqüente eliminação de pensamentos e comportamentos alternativos.
Uma das armas mais eficazes do sistema do capital são as instituições religiosas que exercem um poder “divino” sobre os fiéis, o que facilita muito a aceitação por parte destes das contradições inerentes ao sistema. Contradições que surgem no discurso religioso travestidas de eufemismos, metáforas e ordens que devem ser acatas e não questionadas: mandamentos e leis sustentados por uma leitura superficial, literal, tendenciosa, atemporal e anacrônica de “textos sagrados”. A própria organização hierárquica das instituições religiosas é, em si, uma clara demonstração do papel adestrador das igrejas que se autodenominam porta-vozes de deus. Falam em nome do deus Mercado.
A ressurreição do “ensino religioso” nas escolas públicas parece fazer parte de um projeto maior de transmutar seres humanos em cordeirinhos sob a tutela do pastor financeiro. Uma tentativa da ultra direita mega conservadora de reascender a chama do fascismo.
Não sou contra o estudo das religiões desde que algumas questões sejam bem esclarecidas como: por que ensino religiosoe não História das Religiões?; todas as religiões serão abordadas: africanas, latino americanas, orientais, islã, ect?; as abordagens serão críticas ou apologéticas? Respondidas essas e outras questões a inserção do estudo das religiões na grade curricular pública poderia fazer parte de um projeto emancipador maior. Porém, diante dos problemas de nossa escola pública, deliberadamente sucateada em prol do “projeto” neoliberal, pensar na imposição dos dogmas religiosos aos alunos parece até piada de mau gosto. A julgar pelo andar da carroça temo rever o filme de terror da UDN: Família, Propriedade e “Valores” Religiosos.
Há um nefasto paralelo entre as medidas de “austeridade” (para tentar contornar a crise financeira do capital) que massacram portugueses, espanhóis, gregos e italianos e a volta do ensino religioso às escolas públicas: em ambos os casos usam da retórica para tentar nos convencer de que a solução para o problema é a aplicação sistemática daquilo que o engendrou. Dito de outra forma: a solução para a crise causada pela desregulamentação do mercado, exploração do trabalhador, super produção e desperdício é mais desregulamentação, mais exploração, mais produção e mais desperdício; assim, também a solução para a situação deplorável das escolas públicas, destruídas pelo ultraconservadorismo neoliberal, é mais conservadorismo.
O fundamentalismo neofascista argumenta que a matéria será optativa e que caberá aos pais decidirem se os filhos irão ou não assistir as pregações. Pura retórica. Os pais que professam alguma religião já a transmitem aos filhos que contam com uma boa variedade de aulas de ensino religioso: catecismo, escolas dominicais, grupos de jovens...
Um Estado que possui uma religião oficial não pode ser chamado de democrático; um país cuja escola pública não é laica não passa de uma ditadura. E não se enganem, esse é o projeto dos neofascistas: transformar seus dogmas em leis e impô-los a todos os outros cidadãos, perseguindo (torturando e matando quando for preciso) qualquer um que pensar ou comportar-se de forma diferente. Lembram-se do material didático que visava auxiliar os professores a combater a homofobia que foi perseguido, atacado, proibido e (fascistamente) apelidado de Kit-Gay?
Temos que lutar por um Estado laico e uma escola pública laica que eduque nossos filhos e netos para a liberdade de pensamento, para a autodeterminação e emancipação. Às religiões deve ficar reservado somente o espaço privado. Aos que quiserem educação religiosa não faltam templos que servem exclusivamente para este fim.

8 de nov. de 2011

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ENTÃO, É NATAL?
Lucas Mani Jordão
Faltam quase dois meses, mas para os shoppings de São Paulo já é natal. Nada de estranho visto que o comércio encara as datas comemorativas (quando somos “obrigados” a nos presentearmos uns aos outros) como um farto banquete. Nessas datas podemos torrar os caraminguás que, literalmente, nos matamos para conseguir com bugigangas que distribuímos para demonstrar o carinho e a atenção que não damos aos que amamos, pois gastamos todo nosso tempo trabalhando para pagar as contas, muitas das quais contraídas na compra de bugigangas inúteis.
É ridículo o suceder de “dias especiais”: ano novo, carnaval, páscoa, dia das mães, dos namorados, dos pais, das crianças, dos professores, natal... Todos acompanhados de apelos emocionados em campanhas publicitárias que nos exortam a consumir algo para demonstrar nosso amor.
O significado das datas desaparece. Em seu lugar são colocadas mascotes comerciais (um coelho que entrega ovos ou um velho gordo e barbudo que em uma noite corre o mundo para entregar (GRÁTIS!!!!) brinquedos para todas as crianças). Toda a complexidade histórica (e pessoal) que se expressa nos dias comemorativos é substituída por uma satisfação egoísta (onanística), cujo ápice (gozo) se encontra no consumo.
Particularmente nunca gostei do natal (quando criança gostava mesmo era das férias). Os brinquedos que ganhava me davam muita alegria, mas poder brincar com pais, avós, primos, tios e amigos sem ter compromisso com a escola nem hora para dormir ou acordar me fazia infinitamente mais feliz. Seu significado religioso tampouco tinha alguma relevância para mim, estar com os meus era o importante. Na casa de minha avó, um mês por ano, éramos uma pequena grande comunidade feliz. Hoje gosto menos ainda do natal: minha avó faleceu, não há mais reuniões familiares e não posso passar muitos dias descompromissado sem hora para dormir e acordar.
As lojas, porém, adoram o natal e fazem todo o esforço para adiantá-lo mais e mais a cada ano. Essa é a expressão clara da voracidade do sistema do capital cunhado nos excessos: exploração, superprodução e desperdício. A experiência de mundo de milhões de pessoas é deliberadamente empobrecida: infantilizados, tendemos a reduzir tudo ao ato obsceno de compra e venda, como zumbis nos acotovelamos nas galerias dos shoppings para adquirir (a um custo infinitamente maior do que o preço que pagamos, considerando os impactos sociais e ambientais) a última obsolescência programada.
Ainda é outubro, mas já é natal. Não há famílias reunidas nem crianças de férias escolares brincando nas ruas (não há mais ruas onde as crianças possam brincar), apenas pinheiros iluminados com a eletricidade que conseguimos através da destruição sistemática da natureza e pobres homens vestindo roupas siberianas suando em bicas no calor brasileiro, enquanto vitrines anunciam promoções imperdíveis, ofertas imbatíveis e oportunidades únicas.
Faltam 58 dias para o dia 25 de dezembro, mas já é natal. Tempo curto para nos programarmos para adquirir os objetos obsoletos que preencherão nossa ausência até a próxima “data especial”. Não recebemos visitas nem visitamos ninguém (ocupados e sem tempo para desperdiçarmos com bobagens). Não há ceias, pois temos que comer cedo (de preferência rapidamente) para podermos dormir, acordar e irmos conseguir os tais caraminguás para pagarmos as bugigangas. De fato, nas mesas de muitos não há o que comer, mas as lojas já estão enfeitadas, seus donos já contabilizam os lucros e não escondem o sorriso ao passarem com o carro importado por um ônibus lotado que vai em direção ao shopping.

1 de jul. de 2011

Artigos: PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS


PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS
“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.” (Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo)

Guerra às drogas?
A chamada “guerra às drogas”, declarada na década de 1970 pelo então presidente norte americano Richard Nixon, soma-se às infindáveis guerras imperialistas com as quais os EUA tiranizam o mundo. E como suas homônimas, essa war esconde sob o véu de um discurso hipócrita e moralista interesses escusos de controle econômico e social: lucros obscenos através da lavagem de dinheiro (leia mais aqui), mecanismos de desestabilização e controle (leia mais aqui) ou mesmo meios de aumentar a exploração sobre seus próprios cidadãos (leia mais aqui).
Quatro décadas depois, cerca de um trilhão de dólares gastos no combate ao tráfico (Imagine só o lucro obtido com os entorpecentes nesses 40 anos!!!), mais de quarenta milhões de pessoas presas (isso só nos EUA), um inimaginável número de mortos e as drogas hoje são muito mais baratas, potentes e difundidas (leia mais aqui).

O espetáculo da violência
O antagonismo de uma sociedade que impõe a busca da satisfação individual como objetivo supremo de vida ao mesmo tempo em que proibi algumas substâncias que causam prazer, se relaciona diretamente com a inversão ideológica da realidade que “transforma” sintomas em causas, com o intuito óbvio de ocultar as verdadeiras causas: o combate ostensivo ao tráfico, à violência dele decorrente e ao usuário oculta a verdadeira raiz das atrocidades cometidas em nome das drogas: sua proibição.
As drogas ilegais (apesar da repressão), do mesmo modo que as legais (cigarro, álcool, refrigerantes, snacks, etc.) são vendidas e consumidas em todo mundo (em cada esquina de cada cidade), enquanto o discurso oficial defende a repressão violenta da ilegalidade a realidade cotidiana demonstra que legais ou não, as drogas circulam livremente – ironicamente, os usuários de crack utilizam latinhas (de refrigerante ou cerveja...) como cachimbos para consumir a pedra, numa triste alegoria da política atual. A inevitável pergunta (ingênua, mas necessária) é: Por que umas são “legais” e outras não? A resposta é que as drogas ilegais se desenvolvem livres de qualquer tipo de fiscalização ou controle, fazendo a alegria de banqueiros, que enchem os bolsos lavando seu dinheiro sujo de sangue, e de governos (financiados pelos mesmos banqueiros) que tem interesse em expandir seus tentáculos de dominação. Assim, o paradoxo legal/ilegal sustenta interesses estratégicos de manipulação sádica, invertendo a realidade e encenando uma farsa de terror e medo que oculta o verdadeiro terrorismo e tudo o que realmente deveríamos temer. A violência em torno do tráfico, portanto, não surge das condições ilegais de produção e comercialização das drogas, é, antes, o mecanismo pelo qual elas são mantidas na ilegalidade.

Descriminalizar e educar
É claro que o livre comércio de crack em bares, farmácias e supermercados não é, nem de longe, uma solução viável (basta observarmos o nefasto lobby do cigarro) e, como já vimos, o combate ao tráfico e ao usuário também não é.
O desafio aqui é tirar o foco do falso paradoxo legal/ilegal que implica na utilização da força de repressão policial, e colocá-lo sobre os horizontes da autodeterminação, emancipação, educação e saúde.
A autodeterminação dos indivíduos (que nos é tolhida pelo sistema democrático/burguês do capital) é fundamental para a desconstrução da ideologia hegemônica, pois propicia a emancipação (alforria) da sociedade. Isso, porém, só é possível através de uma educação libertadora que forme seres humanos críticos e conscientes capazes de se autodeterminar (o que não é possível sem a eliminação das atuais formas de produção). Por fim, é a saúde e não a polícia que deve encabeçar o combate ao uso de drogas, através de intensos trabalhos de esclarecimento, conscientização e tratamentos (desintoxicação e reabilitação) que englobem toda a sociedade. Nós temos o direito de conhecer os efeitos (bons e ruins) de TODAS as drogas (legais e ilegais), assim como de utilizá-las ou não.
Sob esse prisma a descriminalização das drogas passa a ser o método mais eficaz no combate ao seu impacto social, aliando esclarecimento, conscientização e apoio (tratamento) à liberdade, em contraste com a forma mentirosa, assassina e opressora que vigora atualmente.

Lucas Mani Jordão

10 de jun. de 2011

Artigos: A LÍNGUA, O NOVO CÓDIGO FLORESTAL E A MANIPULAÇÃO DAS MASSAS

A LÍNGUA, O NOVO CÓDIGO FLORESTAL
E A MANIPULAÇÃO DAS MASSAS

Lucas Mani Jordão

Nas últimas semanas fomos surpreendidos(?) com outra polêmica cunhada no seio da ignorância. Os grandes meios de disseminação de (des)informação nos bombardearam com críticas viscerais contra um livro didático, que supostamente “ensina as crianças a falar errado”. O livro em questão é o Por Uma Vida Melhor e faz parte da coleção Viver, Aprender, organizada pela Ação Educativa, uma ONG que há 16 anos promove debates e atua em projetos de melhoria da educação e políticas para a juventude. Seus autores são Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto. Os três, professores de língua portuguesa, autores de livros didáticos e estudiosos do tema variação lingüística.
Há uma diferença substancial entre a gramática, defensora das regras “atemporais” e “cultas” da língua “padrão”, e a realidade essencialmente mutante e temporal da língua. A compreensão de que a língua “padrão” é apenas UMA forma de se expressar e não A forma por excelência deveria fazer parte do rol de conhecimento de muitos pretensos jornalistas, bem como as noções mínimas de língua e linguagem.
Ao levar para a sala de aula o tema de variação lingüística, MEC e professores estão conectados com os estudos da lingüística que, diferentemente da engessada gramática descritiva, refletem sobre uma perspectiva inclusiva, de modo a eliminar o preconceito lingüístico, que surge da idéia de que existe somente uma única e eterna forma correta de se expressar. Quando, porém, nos damos ao trabalho de ler o “satanizado” livro didático (Clique aqui para ler), a perplexidade diante do jornalistas que esbravejaram contra ele é ainda maior.
Não nos iludamos, a repercussão sem fundamento desse assunto, feita por marionetes ignorantes, não tinha como objetivo levantar um debate sobre as atuais condições da educação no Brasil, fosse essa a intenção teríamos, invariavelmente, que levar em consideração números como esses: aproximadamente um milhão e trezentas mil crianças matriculadas em escolas entre 8 e 14 anos de idade não sabem ler nem escrever. Clique aqui para ler mais. O que se desejava com essa “polêmica”, mais uma vez, era desviar o foco do assunto em pauta no congresso que tinha REAL importância: O Novo Código Florestal Brasileiro que, na prática, impulsiona a expansão destrutiva do agro-negócio pela Floresta Amazônica.
Prova disso é que aprovado o nefasto código pelo congresso a discussão sobre o “livro que ensina crianças a falar errado” desapareceu, assim como outros assuntos, tais como o brado homofônico/fundamentalista contra o material didático que visava auxiliar educadores a combater a homofobia, fascistamente apelidado de “kit Gay”.
Todo o aparato técnico/ideológico do capital é mobilizado para a manipulação de massas; a indústria cultural solapa a capacidade cognitiva das pessoas; enquanto nos ocupamos com discussões inócuas sustentadas pela “grande mídia”, o capital segue seu curso de destruição livremente visando lucrar com a transformação de florestas em pastos, plantações de soja, milho ou cana, mineradoras, hidrelétricas (para gerar energia para a indústria); de seres humanos em gado e do lindo planeta azulzinho em uma imensa bola morta, perdida no espaço.