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18 de ago. de 2015

Projeto Deslenda

Botoctomia
Na mesa de cirurgia, ele lembrava de suas conquistas, as mulheres; os filhos que não conheceu?
Tem certeza de que vai fazer isso? – perguntou o médico.
Sua memória o levou à primeira vez que saiu das águas do Amazonas; era talvez São João ou Santo Antônio. O terno branco era de acordo com a moda da época, o chapéu combinava com todo resto da indumentária.
Estava nervoso. Como conversar com uma mulher humana? Como convencê-la?
Ficou de lado observando, procurando a “ideal”, afinal, era a primeira, tinha que ser “mágico”.
Uma morena chamou-lhe a atenção, mas quando fez menção de cortejá-la apareceu o marido.
Alguns minutos depois focou uma cabocla amuada no canto...
E então? – insistiu o doutor.
Sim – respondeu secamente.
Durante o efeito da anestesia lembrou-se do motivo que o levou a sala de cirurgia: “a última noite”.
As festas já não são como antes. As pessoas também não. As mulheres são mais independentes. Depois de uma noite solitária decidiu: não precisam mais de mim!
E após sair da sala cirúrgica, com a cirurgia do nariz feita, deixaria de ser lenda para poder fazer sua própria história.

29 de ago. de 2014

Projeto Deslenda

O Lobisomem
Sentado a sua mesa de escritório, fazia suas contas: cartões, supermercado, toda a frivolidade rotineira que nos é empurrada goela abaixo.
Pensava em sua vida antiga, era mais fácil ser caçado, pelo menos sabia que a qualquer momento poderia receber uma bala de prata no peito.
Sim. As histórias, lendas e mitos sobre ele nem sempre foram certas, contudo nem sempre erradas. A bala de prata, verdade; apesar que também poderia ser de ouro ou qualquer outro minério com exceção do chumbo. Comer crianças não batizadas, verdade também; se bem que as batizadas ele optou por não comer, pois começou a dar-lhe indigestão depois de se converter ao catolicismo. Ter sido o sétimo filho, mentira, ou verdade; nem ele sabe ao certo sua origem.
Sobre isso, a teoria de alguns estudiosos seria a que ele poderia ser uma espécie que, ao invés de evoluir do macaco, evoluiu dos lobos. Mas o fato de ser o único lobisomem existente dos últimos milênios descartaria tal possibilidade.
Outra teoria aceita é a de que ele poderia ser um extraterrestre desmemoriado e perdido na Terra.
Seja lá como for, Roberto, que não mais gosta que o chame de lobisomem, optou por parar de ser lenda, cansou de ser perseguido e de ver filmes e versões das mais variáveis e ridículas sobre ele.
Casou-se com Ana, mulher humana. Quando juntos na rua recebem olhares horrorizados, fingem que são por medo dele, mas no fundo sabem que não.
Seu emprego de guarda noturno mal dá para pagar as contas e sentado à mesa do escritório faz contas, corta gasto daqui, de lá, de cá, num malabarismo que nada lembra seus áureos tempos de monstro caçado.
Apesar de odiá-la, fica cantando aquela música “vira-vira vira homem vira-vira vira homem lobisomem”. Respira fundo e lembra do dia em que tomou a decisão de mudar de vida.
Faz alguns poucos anos...
Cansado de caçar, pegou um dinheiro que achara na rua, entrou numa loja de conveniência e comprou algumas coisas.
Assustados, as pessoas na loja chamaram a polícia
Os policiais chegaram atirando “na ignorância mesmo”, como dizia ele; quando viram que suas balas eram inúteis, eles começaram a “conversar”.
–Deita no chão – disse o policial.
–Por quê? – perguntou o Roberto.
–Já mandei deitar.
–Tudo bem, mas eu não fiz nada de ilegal.
Ele foi preso. Seu julgamento durou meses. O promotor não ia muito com a cara dele, mas o defensor público foi incisivo:
–Estão o acusando de quê?
Durante o tempo de prisão é que conheceu Ana. Casaram-se dois meses depois de solto.
O telefone tocou. Eram seus amigos o chamando para beber, “tá aí uma coisa que não vou cortar”.
Penteou os pelos e foi ao boteco da esquina.

23 de jun. de 2013

Experiências de Linguagem

Parte 2
Sim, ao longe é que vem este cheiro putrefato.
Ele entra pelas nossas gargantas como se pudéssemos sentir o seu gosto.
Eu também.
E nem seria surpresa, mas vamos ver, já que você quer ir...

2 de jun. de 2013

Experiências de Linguagem

Parte 1
Será? Será não, é. É justamente o que você vê. As ruínas de uma cidade ainda em chamas.
Nas ruas, vemos veículos motorizados revirados por todos os lados. Esse cheiro de gasolina tá muito forte, não?
Veja!
Parece um pássaro voando, que espécie é? É. Você tem razão, não importa. Mesmo porque ele está correndo atrás do cão... É. Eu sei, tou vendo ele bicando a cabeça do cão. Está arrancando pedaços.
Mas espera!! O cão entrou naquele prédio abandonado.
O pássaro é insistente mesmo. Sobrevoa o prédio querendo sobreviver.
Que foi? Não, eu não vi não! O pássaro caiu de repente?
Olha o cão! Está indo buscá-lo.
Veja como ele o arrasta pra dentro.
Está ouvindo. Vem daquela janela!
O ruído... É. Parecem mesmo vozes, mas não creio.

19 de mai. de 2013

Contos

Onório Onírico (Série Descoberta da Escola)
Na sala de aula, o suor escorria por seu rosto...
Era a prova final...
Cinquenta minutos, o ano todo dedicado, estudando, questionando.
Onório estudava na E. E. Tutis Iguaris, na periferia mais pobre da cidade. Os seus colegas alunos o chamavam de Nerd, a colonização linguística que em outros tempos era conhecido como CDF. Mas não era impopular. Pelo contrário.
Era o jogador principal do futebol, o queridinho das meninas... Enfim. A caricatura perfeita daqueles personagens perfeitos dos filmes da Sessão da Tarde.
Invejado por alguns alunos recebia apelidos maldosos e era provocado para briga quase todo dia. Calma, ele não sofria bullying, afinal de contas tinha personalidade e as provocações ele levava numa boa.
Os professores, bem, esses podiam se dividi naqueles que o admiravam e faziam de tudo para ajudá-lo, etc. E existiam uns que eram meio estranhos: uns tipos que vivem a reclamar de alunos que não se interessam, que não sabem nada e etc. e etc. Porém, quando aparecem Onórios, os rotulam de metidos, que se sentem os imbatíveis e mais etc.
(Aqui vale um parêntese para contar um fato ocorrido na sala dos professores. O professor Tal chegou muito bravo porque Ónorio questionava sobre o “apostilamento”, “onde já se viu. Ele falou que era cômodo para os professores usar a apostila”, falava o professor Tal. “Todo mundo sabe que essas apostila servem para superfaturamento (um outro parêntese dentro deste parêntese: será que sabem?) até parece que ele descobriu o mundo. Se na escola particular tenho que usar apostila porque não aqui. Olha, estamos criando um monstro”)
Voltemos à sala de aula...
Onório olhava para os lados, não para colar, mas por nervosismo, o professor sentado à mesa, observava os alunos, que numa bagunça generalizada respondia suas provas. Sabe, provas aos moldes tradicionais hoje em dia não funcionam (desculpe mais este parêntese, em dia nenhum foi funcional), então os professores não pegam muito no pé dos alunos em dia de prova, aliás, se fôssemos observar os acontecimentos escolares...
Mas bem, ele estava lá, nervoso a cada leitura de pergunta, tremia com o lápis à mão a cada resposta... Faltando um minuto para o sinal ele termina; mas não dá para revisar. Ele entrega; “Onório vem cá”, chama o professor, “O que será que fiz de errado?”, pensou. “Seu nome, você não colocou”, ele escreve: Onório Alguma Coisa que Pensa, Toda Série Alfa, nº infinito.

11 de dez. de 2011

Contos

Quero enlouquecer
Numa tarde chuvosa de verão, solitário, amargurado com a vida, Sérgio olhava pela janela do oitavo andar de seu apartamento, que ficava num bairro nobre desta grande metrópole.
Por sua memória ríspida, mas saudosista, passava parte de sua vida. Vida de sucesso alcançada por muito trabalho, poucos amigos, muitos divórcios, pouca diversão.
Na mesma manhã, fechara um negócio extremamente lucrativo, apesar de não ter ido ao escritório por motivos de doença; trabalhou feito louco para dar tudo certo com os chineses.
No início do mês, os chineses vieram pra cá dispostos a findar com as negociações, “um negócio ocidental tão desvantajoso”, falava em más palavras nativas, o representante da empresa chinesa.
Mas Sérgio, macaco velho, sabia que eles não viriam pra cá se realmente não tivessem interesse no negócio.
“Só querem tirar vantagem”, dizia. “Mas eu sou mais esperto”.
Antes das primeiras reuniões, uma assessora do representante chinês deu à Sérgio um pedaço de madeira todo estilizado.
Este pedaço de madeira foi devolvido cinco meses depois de enviado à China. Ele era oco e dentro não tinha nenhum papel, nem mesmo o que ele tinha colocado com os dizeres: quero enlouquecer.
Há nove meses, durante as negociações, descobriu numa rede social a foto da assessora com a pessoa que recebera o presente. A assessora não entendeu seu interesse, mas passou os recados que não foram respondidos.
Há um ano foi que tudo começou em uma viagem à China. Depois de um vôo desgastante, tirou um dia de descanso, algo incomum para ele.
Foi dar um passeio neste dia, nada para se divertir, mas queria conhecer mais sobre os chineses para tirar vantagem nas negociações.
Se aproximou de uma festa de rua muito alegre e com muitas pessoas. Até deu um sorriso. Andou por entre as pessoas que desfilavam pelas ruas.
Inacreditavelmente se esqueceu do porquê estava na China.
Ao longe viu uma moça e se encantou por ela.
Tentou se comunicar em inglês, mas ela não respondia. Ele insistiu por horas e só então ela falou em um inglês tarzânico: “you crazy”.
“Não, não sou louco, mas por você quero enlouquecer”.
De volta ao apartamento, Sérgio não mais está. A janela está aberta e em toda casa está escrita em letras grandes: quero enlouquecer.

1 de out. de 2011

Primeirus excriptums


Está aqui mais um texto escrito nos tempos de escola. Não o reli para não julgá-lo, deixo isso para vocês se assim o quiserem.

O Mané e o Peladão
Passando numa rua deserta que fica perto lá de casa, uma coisa muito esquisita aconteceu. Um clarão no beco; apareceram de repente duas figuras impressionantes.
Um homem peladão todo pintado, parecia um índio de mil e quinhentos; e um mané todo coberto de panos e roupas.
Perguntou o mané com a língua toda enrolada:
_ Onde estou?
_ Você está na cidade de Ribeirão Preto, no século vinte quase vinte um. - respondi.
_ É impossível. Eu estava cortando Pau-Brasil, reclamou. Como vim parar aqui.
O peladão falou.
_ Foram os Deuses que nos castigaram por nós estarmos os destruindo.
_ “Pera aí”!-exclamei. Como assim “os destruindo”.
_ Cada vez que cortam, matam, como se nunca fossem acabar os bichos e plantas, vocês estão destruindo uma parte dos Deuses - disse o índio.
_ Besteira - falou o português - com tanta terra, tantos bichos e plantas, precisaria de milhares e milhões de pessoas para isso acontecer; e vai levar muito tempo.
Interronpi bravamente:
_ Nem tanto. Vocês vão acabar com as plantas, bichos, e minérios em pouco tempo. Vocês não tiveram respeito, ordem, e nem responsabilidade, agora quem “paga o pato” somos nós do futuro.
_ Eu não acredito - disse o mané - como pode acabar tantas plantas, tantos bichos e etc.?
_ O mal destrói, mata - disse o peladão. Um dia o mal que vocês fazem, cairá sobre vocês.
Depois do sermão do índio resolvi mostrar a cidade a eles.
_ E aí o mané você vê alguma árvore? - perguntei.
_ Poucas - respondeu.
_ Quem sabe você vendo isso, quando voltar para o passado você tenta convencer os outros a não destruírem a natureza - conclui.
Outro clarão apareceu do nada e eles sumiram.
Depois de um tempo fiquei pensando - será que adiantou o português ver o resultado da destruição para que assim pudesse parar? Olhei para um lado olhei para o outro, tudo igual; porém no cartaz do cinema estava:
“As aventuras de Mané e Peladão - eles foram para o futuro e tentaram mudar o seu tempo - um filme de......”.
Lembrando que esta história foi escrita direta com o uso da tecla sap para entendermos o que os personagens principais falavam (principalmente o português).
(19/07/2000)

9 de mar. de 2011

Contos: Uma noite...

Uma noite...
Uma noite estava eu em meu quarto estudando para uma prova da faculdade quando minha prima, com quem dividia o apartamento, me intimou a sair sem reclamações.
O motivo seria um chá de cozinha que ela daria a uma amiga (chá de cozinha é coisa de minhas avós, agora é despedida de solteira mesmo, com stripper e tudo). Recusei-me a sair, afinal a prova seria importante.
Proibiu então ela que eu saísse do quarto sobre juramento de morte. Aceitei, mesmo porque, de qualquer jeito não pretendia sair de lá.
A festa começou com muita conversa e bastante música. Não conseguia me concentrar. Quebrei o juramento e sai.
Nunca tinha visto tanta mulher num só lugar. Apesar de pouco tempo de festa, parecia que todas estavam bêbadas. Até me confundiram com o stripper.
Após reclamar para minha prima sobre o barulho, reconheci uma dentre todas: uma moça morena de cabelos lisos e compridos, seus olhos eram castanhos, sua boca era pequena e delicada, parecia de uma adolescente meiga e pura. Era ela minha primeira paixão; não estou aqui para ser melancólico, falando de minhas paixões adolescênticas; mas apesar de nunca ter vivido carnalmente esta paixão, ou mesmo saber se era correspondido. Ela me marcou tanto que o meu pensamento sempre foi que se tivesse outra oportunidade, mesmo eu namorando, noivo, ou mesmo casado, eu não a desperdiçaria.
Fiz menção de falar com ela, porém minha prima me expulsou da sala.
Voltei para o meu quarto; o barulho agora não me incomodava. Fiquei sonhando acordado, imaginando como ela, tão desengonçada que era, havia ficado linda, quase perfeita.
Peguei no sono.
De repente tive uma sensação deliciosa; ela me beijava.
Sem dizer uma palavra e também sem deixar que eu falasse, foi tirando minha roupa e beijando o meu corpo. Retribuía seu carinho beijando-lhe os seios e acariciando seu corpo.
Pouco a pouco, nossos corpos se entrelaçaram num movimento contínuo e prazeroso. Éramos apenas um.
No ápice do prazer, um grito gozo ecoou. Olhos nos olhos, ainda sem dizer uma palavra, ela sorriu e mais uma vez me beijou.
Não sei por quanto tempo ficamos naquele prazer; apenas me lembro que quando acordei na manhã seguinte ela não estava mais lá.
Fiquei olhando para onde ela havia dormido em meus braços por alguns instantes; foi quando me dei conta que tinha uma prova na faculdade.
Minha nota foi horrível, mas valeu a pena não ter estudado.
Passei a semana inteira dividido entre o trabalho e os estudos; não tive tempo de conversar com minha prima sobre o que acontecera e como encontrá-la.
Quando finalmente perguntei, ela me respondeu:
– Viajou em lua de mel com o marido após o casamento; foram para o sul. Talvez nem voltem.

14 de dez. de 2009

Contos: A Fábula dos Monstros seus


A Fábula dos Monstros seus
Era uma vez uma vila – que de tão longe só nossa imaginação pode ver – nos quais seus moradores, apesar de honrados, trabalhadores, não enfrentavam seus monstros. Tinham medo e assim se fechavam.
O único lá que saia, era um jovem Cavaleiro de visões quixotescas; ele rompia portões e travava lutas sem iguais. Depois das batalhas, os olhos dos outros moradores se enchiam de orgulho alheio; ele todo feliz voltava com a sensação de dever cumprido.
Um dia, porém, não saiu em nenhuma empreitada; foi olhando à sua volta e vira que tudo era igual, nada mudava depois das batalhas. As pessoas sorriam e continuavam suas vidas; ele por sua vez perdera aos poucos aquela boa sensação. Desse dia em diante não saiu mais de casa.
As pessoas ficaram assustadas. Como enfrentar seus monstros? Tentaram de tudo para convencê-lo: deram-lhe armas novas, um cavalo mais rápido, uma armadura de ouro; nada fazia o nosso herói sair.
Quando menos se esperava o maior de todos os monstros apareceu; todos ficaram desesperados e se esconderam. O monstro, porém, queria apenas o jovem rapaz. Ele invadiu seu leito e o chamou à briga. Deu-lhe alguns golpes; mas o jovem não reagia. Quando viu que nosso herói não se mexia começou destruir tudo que via à sua volta, para chamar a atenção dele e nada.
Os moradores da vila correram em apoio ao errante e espantaram o monstro.
Felizes, não viram quando como num passe de mágica sumira o nosso bravo, errante, heroico e destemido Cavaleiro.
Moral da história: para enfrentar seus monstros, às vezes, não precisamos de nada.

17 de nov. de 2009

Contos: Realidade Perdida

Realidade Perdida
Tom estava no quarto olhando para o teto; via nele as estrelas escondidas. No teto branco imaginava o cosmo sobre suas vidas. Suas vidas...
Mas vida de quem?
Lembrou-se então da semana passada quando feliz estava por ter conseguido o emprego que sempre sonhara.
Você começa amanhã! – disse com ênfase o gerente do setor de produção da “grande empresa grande” da cidade.
Amanhã começa minha vida nova, pensava consigo, tudo que sempre quis, agora realizarei.
Seus sonhos não eram muitos: queria um lugar para viver, roupas para vestir, um transporte próprio para ir e vir.
A vida agora seria outra…
Acordou ainda antes do sol nascer, não queria se atrasar; pegou duas conduções, as duas cheias.
O dia passou rápido; a empolgação não o deixara olhar para o relógio.
Chegou tarde em casa, pois tinha perdido a conexão no terminal de ônibus. Mas ainda assim, com um sorriso de orelha a orelha.
Sua mãe percebeu seu cansaço e ofereceu-lhe o jantar; não respondeu, pois estava dormindo. E num sorriso orgulhoso ela disse: meu filho é alguém.
A semana passou; os dias iam iguais. Com o fim de semana se aproximando o sorriso que aos poucos tinha sumido, voltou. O descanso merecido: todo trabalhador tem direito de descansar, dizia consigo.
“Devido ao grande sucesso de nossa empresa teremos que trabalhar neste fim de semana. Lembrem-se: trabalhamos juntos crescemos juntos.”
Este era o cartaz colado ao lado do cartão de ponto.

19 de out. de 2009

Primeirus excriptums

Aqui vai o primeiro conto que escrevi; logicamente já havia escrito coisas parecidas com contos durante minha vida estudantil em redações para escola. Porém este é o primeiro que fiz com a intenção de ser um conto. Confesso que não é lá grandes coisas, mas é meu.
Conto Primeiro
I
Normalmente, nas fazendas de mil oitocentos e alguma coisa tem senzalas e uma “casa central”; na senzala escravos e na casa os seus senhores. Correto?
A fazenda de que vou falar não é diferente.
Nas senzalas, apesar das condições precárias, os escravos tentavam manter suas crenças e tradições. Em uma dessas senzalas sobrevivia um senhor conhecido como “ancião José”, o mais velho de todos; era tão velho que não sabiam sua idade. Era ele o maior responsável por passar para as gerações que vinham as tradições de sua terra natal, pois era o único filho da África.
Ancião José tinha muitos “netos”; o mais forte deles era Joaquim. Tinha lá seus vinte anos e adorava as histórias de José; com elas se sentia livre. Ele nunca escondeu seus sentimentos pelos brancos:
– Os odeio! São todos ruins; nos prendem, nos maltratam, nos matam. Assim que puder fujo.
Na casa morava um jovem casal. Ele chamava-se Pedro e tinha vinte e três anos; ela chamava-se Elisa e tinha dezoito. Tinham ganhado a fazenda de presente de casamento.
Era um casal na medida do possível feliz; e como todos os brancos da época não gostavam de negros. Ela gostava menos ainda, pois seu pai havia sido morto por um negro fugitivo.
II
Num dia de outono, Elisa iria passar um fim de semana na casa de sua mãe. Porém o escravo que guiava o carro tinha caído doente.
– Precisamos de um escravo de confiança, disse Pedro.
– Nenhum negro é confiável, respondeu Elisa.
Pedro sabia que Joaquim era um rapaz destemido e inteligente; tinha facilidade em aprender e principalmente se destacava por ser um negro que questionava as suas condições. Já tinha ido para o tronco varias vezes; era uma ameaça para Pedro, pois mais cedo ou mais tarde poderia provocar uma fuga em massa. Para mantê-lo longe, mesmo por alguns dias, o obrigou a levar Elisa.      
Ainda no mesmo dia partiram; eram um pouco mais de uma da tarde. Joaquim nunca havia saído da fazenda, mas Pedro que não poderia ir, ensinou o caminho.
Chegando numa bifurcação teve dúvida de por onde seguir. Apesar de receoso perguntou a sinhazinha:
– A senhora que já deve ter vindo muito por aqui, deve saber o caminho, não sabe?
– Ora seu negro idiota! - disse ela - Não sou eu que tenho que saber estes detalhes; simplesmente quero chegar à casa de mamãe.
Mesmo com vontade de matá-la, ele seguiu o caminho que lhe pareceu mais correto.
III
Com o passar do tempo Joaquim percebeu que estava perdido numa floresta. Quando Elisa, também percebeu, começou a agredi-lo verbalmente: “nego” cretino, imundo e idiota. Ele tentou manter a calma, mas não conseguiu:
– Sua branquela nojenta! Se não ficar quieta não vou conseguir tirar a gente daqui!
Estava escurecendo e Joaquim achou melhor passar a noite no local para que de manhã pudessem encontrar o caminho de volta. Elisa, com toda prepotência, relutou – Onde já se viu uma sinhá dormir tão perto de um negro? – Mesmo assim tiveram que dormir lá; ela no carro e ele no chão.
Ao amanhecer, Elisa percebeu que Joaquim não estava perto dela; ficou com medo, mas logo ele apareceu trazendo o que comer.
– Ainda bem que trouxeste algo para comer, assim quem sabe te livras da chibata.
– E quem disse que é pra “vois micê”?
– Pois se tu não me alimentares mando-te a morte.
– Aqui “vois micê” não é nada; se quiser comer se arranje sozinha, ou então, espere e veja se sobra alguma coisa que peguei.
Antes de o sol chegar ao centro do céu, começaram uma “fuga” sem rumo.
IV
Passaram-se alguns dias e devido à situação inusitada os dois acabaram se aproximando e começaram a cuidar um do outro, mesmo que não admitissem para si mesmo.
Em busca por água aconteceu um acidente onde morreram os cavalos e perderam-se algumas das roupas dela. Isso fez com que finalmente se respeitassem:
– Agora vejo que estava errada - disse Elisa.
– Como assim? - indagou Joaquim.
– Nem todo negro é ruim.
– É. Também penso eu assim!
– Não entendi?
– Sempre pensei que um branco jamais poderia ser bom.
– Mas os brancos são bons e superiores.
– Bons? Superiores? Que bondade é essa que destrói um igual de vida?
– Nós não somos iguais a ti.
– Pode até ser, mas foi o Deus de “vois micê” que fala: “amai o próximo como a ti mesmo”.
V
Como não gosto de enrolar vou pular para quando os encontraram.
Era um dia bonito, Pedro e alguns capangas que já os procuravam há algumas semanas, encontraram-nos perto de um rio. Sem muita conversa o sinhozinho já ordenou:
– Levem-no para o tronco.
– Por quê? - perguntou a moça desesperada.
– Por te desapareceres por dias.
Ela ficou sem reação; Joaquim levou quinhentas chibatadas e morreu três dias depois.
Porém após sua morte o comportamento de Elisa mudou...
Muitos negros fugiram...
Agora tu verás minha primeira crônica. Na verdade era para ser um conto, porém uma ex-professora, que o corrigiu, me disse que era uma crônica. Quem sou para contestar?
Mijando nas Calças
Por fim, mostrarei não exatamente minha primeira poesia, mas uma delas, a escolhi por ser uma das mais razoáveis desta época.

Os três foram escritos no mesmo período, lia pouco, mas tinha muita coisa na cabeça. Os próximos trabalhos (semanalmente publicados) serão mais razoáveis. Prometo.